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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PRIMEIRO AMOR

NÃO HÁ AMOR COMO O PRIMEIRO
Não há amor como o primeiro. 
Mais tarde, quando se deixa de crescer, 
há o equivalente adulto ao primeiro amor — 
é o primeiro casamento; mas não é igual.

 O primeiro amor é uma chapada, um sacudir
 das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem
 que nos come as entranhas e não nos explica. 
Electrifica-nos a capacidade de poder amar.
 Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor
 de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso
 primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou
 de onde saltamos. 

Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, 
seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola
 de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de 
costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como 
patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar 
por toda a parte. 

Há amores melhores, mas são amores cansados, 
amores que já levaram na cabeça, amores que sabem 
dizer “Alto-e-pára-o-baile”, amores que já dão o
 desconto, amores que já têm medo de se magoarem,
 amores democráticos, que se discutem e debatem. 

E todos os amores dão maior prazer que o primeiro.
 O primeiro amor está para além das categorias 
normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer.
Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo
 que só tem duas cores — o preto-preto feito de todos
 os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de
 todas as cores do arco-íris, todas a correr umas 
para as outras. 

Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura 
dos 30 e com a frescura dos 20 — não há outro amor 
como o amor doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o 
Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca 
cheia de coração e não conseguir dizer coisa com
 coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer
 confessar: “Adeus Mariana — desta vez é que me 
vou mesmo suicidar.” 

Podem ficar (e que remédio têm) com o 
«savoir-faire» e os «fait-divers» e o “quero com vista
 pró mar se ainda houver”. Não há paz de alma,
 nem soalheira pachorra de cafunés com champagnhe 
 que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente perde e toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi. 

Não há regras para gerir o primeiro amor.
 Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado,
 ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: 
«Não pensar, não resistir, não duvidar». Como acontece
 em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda
 se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um
 último capítulo mais feliz ou mais arrumado.

 Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre
 da nossa vida — «e não há milagres em segunda mão».
 É tão separado do resto como se fosse uma
 primeira vida. Depois do primeiro amor,
 morre-se. 
Quando se renasce há uma ressaca. 
Miguel Esteves Cardoso, 
in 'Os Meus Problemas'

Um comentário:

Pedro Luis López Pérez disse...

Maravillosa descripción de lo que es el Primer Amor.
Ese Amor que quedará estancado de por Vida en nuestro corazón y nuestra mente, tiñéndose nuestra Alma de su color y fragancia.
Precioso Poema.
Un abrazo.